Sra. Hillary tentou ditar o que o Brasil teria de fazer
Emerson Leal
Doutor em Física Atômica e Molecular e vice-prefeito de São Carlos
CartaCapital nº 586 fez a seguinte assertiva a propósito da recente visita de Hillary Clinton ao Brasil: “Hillary falou o que quis e ouviu o que não queria”.
Realmente, é impressionante ver a desenvoltura da ilustre Secretária de Estado dos EUA insinuando o que o Brasil teria de fazer ou deixar de fazer. Afinal, não estamos em 1997 quando – como lembra a revista – tínhamos “uma Brasília disposta a prestar vassalagem à hiperpotência”.
Para entender tal comportamento de Hillary, talvez tenhamos de apelar a Freud, por um lado, e, por outro, resgatar o significado prático da Doutrina Monroe, como lembra Chomsky: “os EUA consideram, nas relações com outros países, apenas e tão somente seus próprios interesses. A integridade das outras nações americanas é um mero acidente”.
O presidente Woodrow Wilson, por exemplo, que é considerado o ‘grande apóstolo da autodeterminação’, agiu segundo os princípios da Doutrina ao invadir o Haiti e a República Dominicana, “onde seus soldados assassinaram, destruíram e demoliram o sistema político vigente, deixando as empresas norte-americanas firmemente no controle e preparando, assim, o cenário para ditaduras brutais e corruptas” (Chomsky).
O escritor norte-americano John Steinbeck, em Vinhas da Ira, também pode ajudar-nos a entender; ao descrever a forma como uma parte do México foi subtraída dos mexicanos, disse ele : “A Califórnia já pertenceu ao México, e suas terras aos mexicanos; e uma horda de americanos esfarrapados e loucos assaltou-a. E tal era a sua fome de terra que eles tomaram essas terras dos Guerrero, dos Sutter, e tomaram e rasgaram os respectivos documentos de posse (…). Os mexicanos eram fracos e subalimentados. Não puderam resistir (…).
Madame Hillary, provavelmente possuída pelo espírito da Doutrina Monroe e usando métodos mais sutis, tentou exercer uma série de pressões sobre o governo Lula para obter apoio na tentativa de recuperar espaços políticos perdidos pelos EUA nos últimos tempos; primeiro, insinuando que o Irã mente para o Brasil sobre o seu programa nuclear e que Lula não deveria visitar o país de Ahmadinejad; segundo, pedindo que o Brasil reconheça o novo governo de Honduras, fruto de um golpe de estado articulado pelo Tio Sam.
Nosso presidente respondeu à altura: “Só tenho de prestar contas ao povo brasileiro – disse Lula –, e completou: “Os EUA nunca me pediram para viajarem a qualquer país; não têm que prestar contas a mim”. Além disso, o Irã é um país para o qual o Brasil exporta mais de US$ 1 bilhão por ano e temos todo o interesse do mundo em aprofundar esses laços.
Dá para entender as preocupações e pretensões norte-americanas.
Vários países latino-americanos libertaram-se da ‘vassalagem’ de seus líderes aos interesses da hiperpotência – não é por outro motivo que a Venezuela de Hugo Chávez e a Bolívia de Evo Morales são demonizados dia e noite pela nossa mídia subalterna.
A 4ª Frota dos EUA foi reativada com fins intimidatórios. Brasil e Irã avançando em pesquisas na área nuclear pode significar perda de mercado pelos EUA. Simples assim.
Como diria Galileo-Galilei, Eppur si muove!
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